Dez preconceitos sobre a medicação em Psiquiatria

Dez preconceitos sobre a medicação em Psiquiatria

Antes de consultar um médico psiquiatra, podem surgir várias questões e receios. Pode estar numa fase de maior fragilidade, e ter receio da exposição emocional propiciada pela consulta. Pode ter uma expectativa de melhoria rápida do seu sofrimento. Ou pode simplesmente estar a navegar no desconhecido, sem qualquer ideia do que acontecerá durante a consulta.

Contudo, uma das temáticas mais frequentemente antecipadas e discutidas em consulta, é o medo ou atitude negativa em relação aos fármacos – que, in extremis, podemos apelidar farmacofobia. Estima-se que 30 a 50% da população não adira aos medicamentos prescritos, frequentemente por crenças negativas associadas à medicação. Embora esta não seja a única arma terapêutica do psiquiatra, nalguns casos pode ser o esqueleto do tratamento.

Assim, quais são os principais preconceitos em relação à medicação em Psiquiatria, e o que é mito e verdade?

1. O Psiquiatria prescreve sempre medicação a toda a gente.

O papel do psiquiatra é colher a história clínica do doente e as suas queixas actuais, de forma a formular uma hipótese diagnóstica que lhe permita prescrever um tratamento e ter uma perspectiva de como irá evoluir a doença. Perante determinados diagnósticos, o tratamento não é medicamentoso, podendo ser psicoterapia ou aconselhamento sobre estilos de vida (nomeadamente prática de exercício físico). Por exemplo, nos quadros depressivos ligeiros ou recentes, a indicação de tratamento passa por psicoterapia, prática de exercício físico ou watchful waiting (que significa esperar atentamente pela evolução do quadro clínico antes de intervir).

2. A medicação da Psiquiatria causa habituação.

Existem alguns medicamentos com potencial de tolerância1 e dependência2, sendo que as benzodiazepinas – como o alprazolam ou diazepam – são os exemplos mais clássicos. A maioria dos restantes fármacos não se associam a habituação, pese embora grande parte exija uma descontinuação cuidada. Os antidepressivos são um exemplo de medicamentos que geralmente devem ser suspensos lentamente para evitar sintomas de descontinuação3, mas não por causa de dependência ou abstinência. Mesmo as demonizadas benzodiazepinas podem ser úteis em fase aguda de certas doenças, como nas perturbações de ansiedade, sendo que devem ser feitos tratamentos curtos (até 2 a 4 semanas) ou em regime SOS, com atenção à sua suspensão atempada e gradual. Por vezes, por falta de acompanhamento regular, não existe um plano de redução gradual e/ou suspensão de medicação, conforme ajustado ao caso.

3. A medicação é apenas “penso rápido” para os sintomas.

A medicação pode permitir controlar sintomas agudos, como no caso das crises de pânico, podendo equiparar-se nesses casos a um “penso rápido”. Contudo, muitas vezes é aliada a tratamentos a médio-longo prazo, não apenas farmacológicos, como à psicoterapia e mudança de estilos de vida, para aquisição de ferramentas úteis. Noutras patologias, como nos episódios depressivos, a medicação pode levar á remissão total do quadro clínico. Existem ainda algumas doenças de curso crónico em que a medicação será usada a longo termo, como sejam a doença bipolar ou a esquizofrenia, nas quais é muito mais que um “penso rápido” – é o tratamento de base que permitirá à pessoa manter-se estável e funcionante.

4. Tomar medicação significa que eu sou “fraco” ou “doido”.

Ninguém é “fraco” ou “doido” por ter de tomar medicação do foro da Psiquiatria. Esta questão não se colocaria se falássemos em insulina num doente com diabetes, ou de uma cirurgia num doente com apendicite. A doença psiquiátrica pode afectar qualquer pessoa em qualquer estrato socioeconómico, tem uma componente biológica importante, e, actualmente, tem tratamentos eficazes. Urge remover o estigma associada à doença psiquiátrica, de forma que pessoas que precisam de ajuda não se sintam melindradas por procurá-la.

5. A medicação altera a personalidade das pessoas.

Não existe uma “pílula milagrosa” que mude os traços individuais da personalidade da pessoa. Aliás, quando abordamos traços da personalidade desadaptativos, a primeira linha de tratamento é a psicoterapia. Muitas vezes, é a própria doença aguda que parece mudar a personalidade da pessoa – por exemplo, uma pessoa deprimida que outrora era extrovertida e animada, quando adoece passa o dia deitada e com menos paciência. Quando o tratamento permite uma remissão total dos sintomas, espera-se que volte “ao que era antes”. Existem ainda outras doenças que podem alterar algumas características da pessoa de forma independente da medicação, como seja a demência.

6. Quem começa a tomar medicação nunca pára.

Existe um grupo de doentes que terá de fazer medicação por um período recomendado conforme as guidelines4 científicas, sendo que algum tempo após atingir remissão dos sintomas terá indicação para suspender a medicação. É o exemplo dos episódios depressivos inaugurais, em que é preconizado ensaiar a descontinuação da medicação 6 a 9 meses após resolução do quadro clínico. Um outro grupo de doentes é aquele com doença crónica ou recorrente, no qual uma percentagem considerável terá, de facto, de manter medicação a longo termo. São exemplos as pessoas com esquizofrenia e doença bipolar, nas quais a medicação leva à estabilidade e, portanto, a um impacto muito positivo nas suas vidas. Também no caso dos episódios depressivos, existe uma taxa de recorrência de pelo menos 50%, portanto não é incomum que a pessoa possa de voltar a fazer tratamento noutra fase da sua vida.

7. Os medicamentos naturais são mais seguros e eficazes.

Os médicos psiquiatras praticam medicina baseada na evidência5, pelo que trabalham com fármacos estudados e que demonstrem eficácia e segurança para o caso clínico em questão. Existe um adágio em toxicologia que diz que “a dose faz o veneno”, ou seja, muitas substâncias podem ser terapêuticas ou prejudiciais dependendo da dose, e isto também se aplica aos compostos naturais. Assim, existem produtos naturais inócuos, mas sem eficácia, outros que de facto podem ajudar em certas situações, e outros ainda que podem ter efeitos prejudiciais ou interferir com os tratamentos em curso. O ideal seria tomar substâncias para as quais exista evidência concreta de eficácia e que sejam controladas. Caso queira experimentar algum remédio natural, sugere-se falar com o médico assistente que, embora possa não recomendar esse tratamento, poderá advertir caso o risco seja superior ao benefício.

8. A medicação engorda e deixa as pessoas sedadas.

É verdade que alguns medicamentos podem levar a ganho de peso ou sonolência. No reverso da moeda, alguns medicamentos podem levar a perda de peso ou alguma activação. Perante o doente e as características do seu quadro clínico, o médico psiquiatra escolhe a terapêutica mais ajustada à situação. Ou seja, perante uma pessoa que não quer alterar o seu peso, existem hoje em dia diversos fármacos com impacto metabólico neutro. Por outro lado, num doente com insónia grave, será benéfico prescrever um medicamento que lhe permita ter boas noites de sono. Existe sempre uma percentagem de pessoas que pode sofrer efeitos adversos não esperados, mas cada vez mais a farmacopeia disponível permite uma escolha ajustada do tratamento ao doente, após discussão cuidada das suas preferências.

9. Os médicos são persuadidos pelas farmacêuticas a prescrever.

Embora as empresas farmacêuticas possam ter um papel na informação dada aos médicos sobre os fármacos que produzem, não é expectável que o médico prescreva guiado por isso. Durante a formação médica, faz parte do currículo aprender a ler estudos e literatura científica de forma crítica, exactamente para conseguir perceber o que tem realmente evidência e faz sentido prescrever. Igualmente, existem normas e guidelines que orientam o tratamento das patologias de forma isenta. Por fim, hoje em dia existe uma miríade de marcas e genéricos, pelo que a maioria das prescrições são feitas pelo princípio activo, e a pessoa pode escolher posteriormente o que prefere comprar.

10. Os psiquiatras demoram muito tempo a acertar com a medicação.

A escolha do medicamento é um processo que envolve diversas variáveis – os antecedentes médicos da pessoa, quais os outros medicamentos que toma, qual a impressão diagnóstica e queixas do doente, que tipo de sintomas apresenta, etc. Dentro duma classe de medicamentos, existem ainda diversos com perfis de acção e efeitos secundários diferentes. Para adicionar complexidade, algumas pessoas não toleram medicamentos aos quais outros pacientes respondem muito bem. Por isso, e embora não seja o mais frequente, o doente pode não responder bem logo na primeira prescrição. Quando isso acontece, pode ser necessário rever o caso e reconsiderar o diagnóstico feito, ou tentar outro medicamento diferente. O importante, é expor sempre ao médico assistente as questões que surgem de forma de forma a trabalharem juntos no tratamento mais adequado ao seu caso.

Em resumo, se tem sintomas como sejam ansiedade, depressão ou insónia, que o preocupam, procure ajuda sem ser impedido pela “farmacofobia”. Exponha as suas dúvidas ao seu médico, que decerto o orientará à resposta mais adequada e com respeito pelas suas questões.

Glossário

  1. Tolerância: ocorre quando, após administração repetida duma substância, a mesma dose produz um efeito reduzido ou são necessárias doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito inicial.
  2. Dependência: estado decorrente da administração repetida de certa substância, no qual existe um forte desejo ou compulsão para consumir a mesma, com prejuízo doutros objectivos ou interesses, e podendo ocorrer tolerância e abstinência quando é suspensa.
  3. Descontinuação: sintomas associados à suspensão duma substância sem implicar adição ou dependência da mesma.
  4. Guidelines: conjunto de recomendações baseadas em revisões de literatura científica, experiência clínica e/ou opiniões de experts que visam orientar a prática clínica, nomeadamente ao nível da prescrição de fármacos perante determinados quadros clínicos.
  5. Medicina baseada na evidência (MBE): corresponde à utilização da evidência disponível – nomeadamente investigação com metodologia robusta e resultados clinicamente relevantes – de forma a tomar decisões sobre os cuidados prestados, integrando a experiência clínica e os valores dos doentes. Permite optimizar as decisões clínicas tomadas e também justificá-las, sendo transversal a todos os campos da Medicina.

Bibliografia

Geddes, J.R., Andreasen, N.C., Goodwin, G.M. (2020). New Oxford Textbook of Psychiatry (3rd ed.). Oxford University Press.

Ghaemi N. (2019) Clinical Psychopharmacology: Principles and Practice. Oxford University Press

Petelinšek A, Lauri Korajlija A. Predictors of pharmacophobia. Health Psychol Res. 2020 May 26;8(1):8853. doi: 10.4081/hpr.2020.8853.

Stahl, S. M. (2021). Stahl’s Essential Psychopharmacology : Neuroscientific Basis and Practical Applications (5th ed.). Cambridge University Press

Stahl, S. M. (2014). Stahl’s essential psychopharmacology: Prescriber’s guide (5th ed.). Cambridge University Press

Taylor, D. M., Barnes, T. R. E., & Young, A. H. (2021). The Maudsley prescribing guidelines in psychiatry (14th ed.). John Wiley & Sons.

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